meta content='WhereTheLightIsBlog' property='fb:admins'/> Where The Light Is - Por Gabriela Cubayachi: Unsaid Things: Querido Van Gogh

24 março 2016

Unsaid Things: Querido Van Gogh



Querido Van Gogh,

Lembro de ter ouvido falar muito de você na escola, na televisão e na faculdade... Mas por algum motivo, mesmo depois de todos esses anos, sinto que eu nunca soube sobre as coisas que realmente importavam. Lembro de ter aprendido que você é um dos maiores pintores do mundo, talvez o mais popular deles. Que sua arte foi extremamente importante para o pós-impressionismo, que você influenciou pintores do mundo todo, que uma das maiores características das suas obras é o uso da cor. Ouvi, inclusive, teorias de que você era daltônico, pois só isso justificaria tanto o uso de amarelo. E outras teorias dizendo que você era esquizofrênico, bipolar ou louco, afinal, por que mais você teria cortado um pedaço da sua orelha esquerda? Ouvi muito sobre você, a vida toda... Mas como eu disse, nada que realmente importasse. Aprendi sobre a arte, mas não sobre o artista. Aprendi sobre as pinturas, mas não sobre o homem que segurava o pincel. E então um dia eu aleatoriamente passei por um vídeo que falava sobre Starry Night e sobre como você pintou aquele quadro durante uma crise. E de como as ondas, aquelas que todos nós achamos lindas, eram o retrato do seu sofrimento. Lembro que aquilo mexeu comigo e lembro de ter ficado incomodada quando ouvi uma pessoa comentando que seus quadros eram magníficos "apesar da sua loucura", e que hoje eles são "muito bem avaliados e valem milhões". Lembro de ter mordido minha língua, porque quem era eu para discutir com alguém que certamente entendia muito mais de arte do que eu? Depois disso, confesso que fiquei curiosa. Procurei sobre você em livros de arte e tudo que encontrei foram fatos. Nasceu em ano tal. Morreu em ano tal. Pintou tantos quadros. Influenciou esse e aquele artista. Seus quadros valem milhões. E então comecei a procurar mais a fundo na internet e descobri que você costumava escrever cartas para o Theo, seu irmão. Descobri que durante sua vida toda, você fez mais de 900 quadros, mas só conseguiu vender um, porque as pessoas não levavam você a sério. Achavam seus traços desajeitados, seus objetos ruins, nem mesmo seu irmão aprovava o que você fazia no começo. Descobri que suas cartas viraram um livro, mas não encontrei pra comprar, então assisti a um documentário baseado nelas. Você era tão triste. Tão sozinho. E embora fizesse questão de demonstrar isso, acho que a maioria das pessoas não percebia de verdade. Você tinha crises feias de depressão e bipolaridade, e na época isso era sinônimo de loucura, porque não eram diagnósticos conhecidos como hoje. Mas apesar de tudo isso, você continuou a acreditar em si mesmo. Você estudava o mesmo desenho repetidamente até atingir a perfeição e, mesmo quando ninguém mais gostava, continuava a fazer aquilo que você tanto amava. Você descobriu sua paixão quando tinha mais de vinte anos, e penso que suas obras foram sua companhia quando ninguém mais estava lá. Recentemente eu assisti um episódio de Doctor Who que foi todo inspirado em você - o que fez com que eu voltasse a pensar em tudo isso-, e foi o episódio mais lindo do mundo, porque não falava sobre a arte e sim sobre o artista. Sobre o que, pra mim, é o que realmente importa. Falava sobre seu sofrimento, sua solidão e a forma que você enxergava o mundo apesar de tudo isso, e como você conseguia transformar sua dor em beleza. No fim do episódio, você entra na Tardis e o Doctor te leva para o Museu D'Orsay em Paris nos dias atuais, onde você pode ver suas obras e, mais do que isso, ver como seu trabalho é admirado, como você é amado. E como eu queria que isso pudesse ser verdade... Queria voltar no tempo e dizer "Não vá até aquele campo, não atire em si mesmo, não pare de acreditar! Olhe aqui, você não está sozinho!" e, mesmo que não pudesse salvar você de si mesmo, eu poderia pelo menos salvar você do mundo e de como ele foi cruel com você. Queria poder dizer que você não deveria comparar-se tanto aos seus amigos, nem brigar com Gauguin por isso, porque o mundo sempre teve espaço suficiente pra vocês dois. Queria dizer que seus girassóis sempre valeram milhões, mesmo quando aparentemente não valiam nada. Hoje, eu sei que o que dizem ser "pinceladas irregulares e brutas", são na verdade desespero, angústia e dor. Você sempre defendeu o amor, pregou o amor, amou o amor. Você amava tanto, enxergava tanto... E talvez por isso você perdeu o equilibrio, talvez por isso a razão passou a não fazer mais sentido. Você não tinha medo de errar, de aprender, de crescer e de desafiar qualquer um que ousasse falar mal daquilo que você tanto amava. Fico triste quando penso que você precisou morrer para ser visto, e que o mundo ainda não estava pronto para alguém como você... Pelo menos não enquanto você ainda estava aqui, tão sozinho. Certa vez, você disse que preferia morrer de paixão do que de tédio... E acho que foi isso mesmo que aconteceu, no final das contas. Pouco antes do seu suicídio, você escreveu para o Theo e disse ser um fracasso, disse que aceitava esse destino, porque ele nunca ia mudar. Quando ele chegou no seu quarto, você disse: "La tristesse durera toujours". (A tristeza durará para sempre). E então você se foi. Um mês depois, suas obras foram expostas em Paris. Hoje, você está em todo lugar. E não deixo de me perguntar se o que você disse ao Theo é verdade, se sua tristeza ainda está aí com você, no seu céu estrelado. Espero que não.

* Este post faz parte de um projeto novo no blog chamado Unsaid Things, em que escrevo cartas. Quem quiser participar, fique à vontade. Pode ser para qualquer um, sobre qualquer coisa, desde que seja com muito amor. 

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4 Comentários

  1. Gabi, que texto mais lindo! Eu me interessei pelo Van Gogh depois do episódio de Doctor Who, que é o meu preferido da série inteira por ser exatamente sobre o artista e não sobre arte, bem como você falou. Na faculdade uma professora falou que haverá um trabalho sobre o Vincent e eu fiquei super empolgada porque já me agarrei a essa oportunidade de pesquisar, aprender e falar mais sobre ele. É um trabalho da disciplina de Teorias da Personalidade, do curso de Psicologia, e eu acredito que tem tudo para ser incrível!
    Ah, adorei a ideia do projeto e já estou louca para ler as outras cartas :)
    Beijo

    www.blogrefugio.com

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    1. Oi Ceci!
      Jura? Que amor! Eu fiquei muito apaixonada por esse episódio, até chorei horrores, hehe. E que incríveeeel, ainda mais sendo de psicologia! Com certeza você vai conseguir explorar bem mais esse lado humano dele, né? Boa sorte com seu trabalho! <3

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  2. Posso dizer que quase chorei lendo? Porque foi o que aconteceu!
    Amei seu texto, Gabii e você sabe que adoro textos pessoais, então vou ficar no aguardo por mais posts como esse :)

    Beijooo
    Close To Paradise

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    1. Ôooooo, sua linda! <3
      Fico feliz que vc tenha gostado! E pode deixar, to querendo fazer mais textos assim por aqui <3 Obrigada pelo comentário lindo, como sempre!

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